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Título: O Brasil na geopolítica da imunidade estatal : as fronteiras instáveis da relativização de atos de império em violação a direitos humanos estabelecidas pela Tese 944 do Supremo Tribunal Federal
Autor(es): Santos, Gabriella Coelho
Orientador(es): Galindo, George Rodrigo Bandeira
Assunto: Geopolítica
Imunidade estatal
Imunidade de jurisdição
Data de publicação: 7-Out-2026
Referência: SANTOS, Gabriella Coelho. O Brasil na geopolítica da imunidade estatal: as fronteiras instáveis da relativização de atos de império em violação a direitos humanos estabelecidas pela Tese 944 do Supremo Tribunal Federal. 2026. 505 f. Tese (Doutorado em Direito) — Universidade de Brasília, Brasília, 2026.
Resumo: A presente tese investiga a relativização da imunidade de jurisdição estatal em casos de alegadas violações de direitos humanos, a partir da análise crítica do julgamento do Recurso Extraordinário com Agravo nº 954.858, que deu origem à Tese 944 do Supremo Tribunal Federal. O episódio, conhecido como Caso Changri-lá, serve de ponto de partida para examinar não apenas os argumentos jurídicos mobilizados pela Suprema Corte, mas também os deslocamentos discursivos e normativos que o tornaram possível. O problema de pesquisa consiste em compreender de que maneira o Supremo Tribunal Federal, ao relativizar a imunidade de jurisdição de atos de império vinculados a alegadas violações a direitos humanos, reposiciona o Brasil na geopolítica da imunidade estatal. Parte-se da hipótese de que, ao recorrer a fundamentos normativos indeterminados — como a invocação genérica de “direitos humanos” —, o tribunal rompeu com a lógica cautelosa que historicamente orientava a prática estatal brasileira e projetou o país para uma posição discursiva isolada, sem respaldo consolidado no direito consuetudinário vigente. Para demonstrar tal hipótese, a pesquisa desenvolve três objetivos específicos: reconstruir o percurso histórico e jurídico do Caso Changri-lá, com ênfase na caracterização dos argumentos jurídicos e das escolhas interpretativas que conduziram à formulação da Tese 944 pelo Supremo Tribunal Federal; contextualizar, a partir dos marcos temporais do Caso Changri-lá, a geopolítica da imunidade estatal no âmbito internacional, examinando como o Judiciário e o Executivo brasileiros se posicionaram diante dessa dinâmica, em meio a alinhamentos, deslocamentos e tensões; e, por fim, interpretar criticamente as consequências jurídicas e geopolíticas da Tese 944, sobretudo no que tange aos efeitos da indeterminação dos direitos humanos como fundamento normativo, bem como apontar possíveis soluções. A análise estrutura-se, metodologicamente, como um estudo de caso, nos termos propostos por Robert K. Yin, com base na reconstrução crítica do julgamento do ARE 954.858 como unidade analítica central. A investigação fundamenta-se na leitura detalhada dos autos judiciais, dos votos dos ministros e das manifestações da Procuradoria-Geral da República, além de dialogar com pareceres dos consultores jurídicos do Ministério das Relações Exteriores e com a doutrina especializada. O referencial teórico articula as categorias de apologia, utopia e indeterminação formuladas por Martti Koskenniemi, somadas à noção de vernacularização do direito internacional, desenvolvida por Sally Engle Merry e Peggy Levitt, a fim de revelar como certos discursos jurídicos foram recepcionados, reinterpretados ou pelo Brasil. Ao tensionar fundamentos jurídicos frágeis para justificar uma guinada interpretativa sem ancoragem normativa consolidada, o STF produziu uma exceção sem contornos definidos, a qual desafia os limites do regime jurídico da imunidade estatal e desloca o Brasil para uma zona discursiva ambígua no cenário internacional. Justifica-se, assim, a relevância desta pesquisa, que ultrapassa o campo da dogmática jurídica e busca compreender, com rigor crítico, os processos de construção dos discursos normativos no direito internacional.
Abstract: This dissertation investigates the relativization of state jurisdictional immunity in cases involving alleged human rights violations, based on a critical analysis of the judgment rendered in Extraordinary Appeal with Aggravation (ARE) No. 954.858, which resulted in the formulation of Thesis 944 by the Brazilian Federal Supreme Court (Supremo Tribunal Federal — STF). The episode, known as the Changri-lá Case, serves as a starting point for examining not only the legal arguments mobilized by the Court but also the discursive and normative shifts that made such a decision possible. The research problem lies in understanding how the Supreme Court, by relativizing the jurisdictional immunity of sovereign acts linked to alleged human rights violations, repositions Brazil within the geopolitics of state immunity. The central hypothesis suggests that, by resorting to indeterminate normative grounds — such as the generic invocation of “human rights” — the Court broke with the cautious logic that had historically guided Brazilian state practice and projected the country into an isolated discursive position, lacking consolidated support in prevailing customary international law. To demonstrate this hypothesis, the research unfolds through three specific objectives: to reconstruct the historical and legal trajectory of the Changri-lá Case, with emphasis on the legal arguments and interpretative choices that led to the formulation of Thesis 944; to contextualize, based on the case’s temporal landmarks, the geopolitics of state immunity within the international sphere, examining how the Brazilian judiciary and executive responded to this dynamic amidst alignments, displacements, and tensions; and, finally, to critically interpret the legal and geopolitical consequences of Thesis 944, especially concerning the effects of the indeterminacy of human rights as a normative foundation, while suggesting possible alternatives. Methodologically, the analysis is structured as a case study, in accordance with the approach proposed by Robert K. Yin, based on the critical reconstruction of the ARE 954.858 judgment as the central analytical unit. The investigation relies on a detailed reading of court documents, ministerial opinions, and statements from the Office of the Prosecutor General, while also engaging with legal opinions issued by the Legal Advisers of the Ministry of Foreign Affairs and relevant scholarly literature. The theoretical framework combines the categories of apology, utopia, and indeterminacy, as developed by Martti Koskenniemi, with the notion of vernacularization of international law, as formulated by Sally Engle Merry and Peggy Levitt, in order to explore how specific legal discourses were received, reinterpreted, or instrumentalized by Brazil. By invoking fragile legal grounds to justify an interpretative shift unsupported by consolidated normative standards, the STF produced a borderless exception that challenges the limits of the legal regime of state immunity and shifts Brazil into an ambiguous discursive zone within the international arena. This research is thus justified by its aim to go beyond legal dogmatics and critically examine the processes through which normative discourses are constructed in international law.
Unidade Acadêmica: Faculdade de Direito (FD)
Informações adicionais: Tese (doutorado) — Universidade de Brasília, Faculdade de Direito, Programa de Pós-Graduação em Direito, 2026.
Programa de pós-graduação: Programa de Pós-Graduação em Direito
Licença: A concessão da licença deste item refere-se ao termo de autorização impresso assinado pelo autor com as seguintes condições: Na qualidade de titular dos direitos de autor da publicação, autorizo a Universidade de Brasília e o IBICT a disponibilizar por meio dos sites www.unb.br, www.ibict.br, www.ndltd.org sem ressarcimento dos direitos autorais, de acordo com a Lei nº 9610/98, o texto integral da obra supracitada, conforme permissões assinaladas, para fins de leitura, impressão e/ou download, a título de divulgação da produção científica brasileira, a partir desta data.
Aparece nas coleções:Teses, dissertações e produtos pós-doutorado

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