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Título: Cristais do rio São Francisco : fraturas por Sobradinho e Itaparica nos ciclos da matéria e da memória
Autor(es): Teixeira, Carolina Guida
Orientador(es): Trevisan, Ricardo
Assunto: Planejamento urbano e regional
Território
Infraestrutura
Usinas hidrelétricas
Cidades novas
Barragens
Rio São Francisco
Data de publicação: 28-Jul-2026
Referência: TEIXEIRA, Carolina Guida. Cristais do rio São Francisco : fraturas por Sobradinho e Itaparica nos ciclos da matéria e da memória. 2026. 138 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) — Universidade de Brasília, Brasília, 2026.
Resumo: O estrondo que anunciou o fim de mundos inteiros no Vale do São Francisco não veio do céu, mas do avanço inexorável das águas que, ao se avolumarem, devoraram a paisagem para cumprir sua promessa de “redenção”. Por séculos, a perenidade do rio, em pleno semiárido, desenhou um leito civilizatório que atraiu comunidades e consolidou cidades; a partir da década de 1970, porém, as águas que fundavam passaram a afundar. No avanço da demanda energética dos centros industriais, o sertão foi convertido em “zona de sacrifício”, encontrando no Polígono das Secas – estigmatizado como “região-problema” – a legitimidade para a construção de sucessivas muralhas de concreto que afundaram cidades inteiras. Nesse gesto inscreve-se o Capitaloceno – quando o rio é convertido em mercadoria e a bacia em campo de expropriação territorial –, tendo nas usinas de Sobradinho (1979) e Itaparica (1988) seus emblemas, expressos na submersão de sete núcleos urbanos e no desalojamento de aproximadamente 137 mil pessoas. Ao acorrentar o Velho Chico, tal engenharia estancou o pulso das cheias e vazantes e instaurou uma nova temporalidade no vale. Nesse tempo suspenso pelo represamento, o passado deixa de habitar apenas o pretérito e passa a tensionar continuamente o presente. Sob a lente da “imagem-cristal” de Gilles Deleuze e da “duração” de Henri Bergson, a pesquisa investiga o território do Vale do São Francisco como um cristal histórico fraturado pelas barragens, no qual a matéria e a memória retornam, revelando a coexistência entre um passado virtual e um presente fraturado, que coexistem na mesma paisagem. Tal ruptura desdobra-se em quatro fraturas: a ambiental, na qual o ciclo ancestral de simbiose entre rio, terra e homem retorna sob a forma de um circuito necrófago; a social, em que a promessa estatal de progresso e luz refrata-se na experiência do desterro e reaparece como espera; a material, na qual a matéria das cidades submersas persiste sob as águas e retorna nos fragmentos, pedras e traçados que atravessam o presente, enquanto novas cidades são projetadas sobre sua ausência; e a memorial, na qual as ruínas e fissuras da paisagem fazem retornar o passado e o trauma da ruptura, que continuam a marcar o território. Metodologicamente, o trabalho combina história, urbanismo e sociologia por meio de cartografia crítica, pesquisa documental e um mosaico de vozes recolhidas no território (2021-2024). Para além do apagamento físico, a investigação desvela uma paisagem de insistências, onde nada possui início ou fim quando a inundação se dá também por dentro. Pelas fendas abertas pelo desenvolvimento, o represado transborda e a vida insiste em brotar, revelando um território onde matéria, memória e tempos retornam continuamente, atravessando a paisagem do Vale do São Francisco.
Abstract: The roar that announced the end of entire worlds in the São Francisco Valley did not come from the sky, but from the inexorable advance of the waters that, as they swelled, devoured the landscape to fulfill their promise of “redemption.” For centuries, the river’s permanence in the semi-arid region traced a civilizational course that attracted communities and consolidated cities; from the 1970s onward, however, the waters that once founded territories began to submerge them. With the growing energy demands of industrial centers, the sertão was converted into a “sacrifice zone,” finding in the Polígono das Secas—stigmatized as a “problem region”— the legitimacy for the construction of successive concrete walls that submerged entire cities. This gesture inscribes the Capitalocene— when the river is converted into a commodity and the basin into a field of territorial expropriation—having in the Sobradinho (1979) and Itaparica (1988) dams its most emblematic expressions, manifested in the submergence of seven urban centers and the displacement of approximately 137,000 people. By chaining the Velho Chico, such engineering halted the pulse of floods and droughts and established a new temporality in the valley. In this time suspended by damming, the past ceases to inhabit only the past and begins to continuously tension the present. Through the lens of Gilles Deleuze’s “crystal-image” and Henri Bergson’s concept of duration, this research investigates the territory of the São Francisco Valley as a historical crystal fractured by dams, in which matter and memory return, revealing the coexistence of a virtual past and a fractured present that inhabit the same landscape. This rupture unfolds into four fractures: the environmental, in which the ancestral cycle of symbiosis between river, land, and human life returns in the form of a necrophagous circuit; the social, in which the state’s promise of progress and light refracts through the experience of displacement and reappears as waiting; the material, in which the matter of submerged cities persists beneath the waters and returns through fragments, stones, and urban traces that traverse the present, while new cities are projected upon their absence; and the memorial, in which the ruins and fissures of the landscape bring back the past and the trauma of rupture, continuing to mark the territory. Methodologically, the study combines history, urbanism, and sociology through critical cartography, documentary research, and a mosaic of voices collected in the territory (2021–2024). Beyond physical erasure, the investigation reveals a landscape of persistence, where nothing has a clear beginning or end when the flooding also occurs within. Through the fissures opened by development, what was dammed overflows and life insists on emerging, revealing a territory where matter, memory, and time continuously return, traversing the landscape of the São Francisco Valley.
Unidade Acadêmica: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU)
Informações adicionais: Dissertação (mestrado) — Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, 2026.
Programa de pós-graduação: Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo
Agência financiadora: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
Aparece nas coleções:Teses, dissertações e produtos pós-doutorado

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