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Título: Trajetória de desenvolvimento de pessoas não-binárias : entre ambivalências e resistências
Autor(es): Araujo, Isabella Alves Alencar de
Orientador(es): Oliveira, Maria Cláudia Santos Lopes de
Assunto: Psicologia semiótico-cultural
Desenvolvimento humano
Não-binariedade
Pessoas não-binárias
Data de publicação: 6-fev-2026
Referência: ARAUJO, Isabella Alves Alencar de. Trajetória de desenvolvimento de pessoas não-binárias: entre ambivalências e resistências. 2025. 308 f., il. Tese (Doutorado em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar) — Universidade de Brasília, Brasília, 2025.
Resumo: Nesta tese, o tema da não-binariedade é abordado por meio de deslocamentos epistêmicos que reconfiguram os modos pelos quais a Psicologia do Desenvolvimento Humano compreende os processos psicológicos. A não-binariedade é compreendida como uma forma de autoidentificação que tensiona regimes normativos de gênero. Por outro lado, a cisheteronormatividade se configura como eixo mediador afetivo-semiótico que canaliza crenças, valores e afetos. Os sistemas valorativos cisheteronormativos buscam canalizar as formas de inteligibilidade sobre as diferenças humanas, concepções de si, formação dos corpos-selves, modos de se relacionar e de produzir conhecimento. Parte-se da Psicologia Cultural Semiótica, em diálogo com epistemologias decoloniais e queer, que acolhem o princípio de que sujeito e sociocultura são coconstituídos, permeados por ambivalências, resistências e movimentos de co(cri)ação, que se desenrolam na irreversibilidade do tempo. O objetivo desta pesquisa é investigar como as dinâmicas semióticas caracterizadas por ambivalência e resistência operam na (re)configuração das concepções de si e na formação do corpo-self nas trajetórias de desenvolvimento de pessoas não-binárias. Considerando o Ciclo Metodológico, adotou-se uma abordagem qualitativa com enfoque idiográfico e triangulação de três fases articuladas: entrevistas individuais semiestruturadas, entrevistas em movimento, do tipo go-along, e uma sessão de grupo de reflexão coletiva. Participaram três pessoas adultas, Chico, Cora e Quíron (com idades entre 26 e 29 anos), identificadas como nãobinárias e, à época da pesquisa, residentes no Distrito Federal, Brasil. A apresentação dos resultados articula duas dimensões complementares: a) as ressonâncias entre os casos analisados, considerando-se os signos comuns entre eles, como mulher, bissexual, lésbica e pessoa não-binária; b) as singularidades e dinâmicas próprias de cada trajetória, por meio de um enfoque idiográfico. A discussão organiza-se em três eixos interconectados. Eixo 1) “Processos dilemáticos e produção da autopermissão”, aborda as tensões afetivo-semióticas derivadas de campos dilemáticos, que emergem nas reflexões, concepções de si e expressões do corpo-self que emergem no movimento de deslocamento para além da normatividade. Nesse sentido, o conceito de disforia é deslocado de uma leitura intrapsíquica para uma compreensão intersubjetiva, vinculada às interpelações que restringem as possibilidades de autopermissão. Eixo 2) “Formação do corpo-self e a persistência da visão”, que explora como a suspensão, ainda que parcial, das forças normativas e das interpelações do Outro instaura zonas de experimentação e (re)elaboração afetivo-semiótica, das quais emergem modos alternativos de viver, desejar e reconhecer-se. Essas dinâmicas se manifestaram em experiências situadas, como nos quartos, nos centros urbanos e no contexto da pandemia. Eixo 3) “Não-binariedade e desenvolvimento humano: indeterminação e emergência da novidade”, compreende a não-binariedade, nas trajetórias analisadas, como operador transformacional e autorregulatório do sistema psicológico, por meio do brincar, do experimentar e do contestar diante das interpelações cisheteronormativas. Considerando que as perguntas são mais fecundas do que as respostas, este trabalho se compreende como portador de um campo de ambivalências e resistências que sustenta o inacabamento e a indeterminação como princípios ético-políticos e epistêmicos da co(cri)ação e da produção de conhecimento socioculturalmente responsável.
Abstract: In this dissertation, the theme of non-binarity is engaged through epistemic displacements that reconfigure how Human Development Psychology conceives psychological processes. Non-binarity is understood as a mode of self-identification that challenges normative gender regimes. In contrast, cisheteronormativity functions as an affective–semiotic axis that canalizes beliefs, values, and affects. Cisheteronormative value systems regulate the intelligibility of human differences and the formation of self-conceptions, body-selves, relational modes, and ways of producing knowledge. Grounded in the Cultural Psychology of Semiotic Dynamics, and in dialogue with decolonial and queer epistemologies, this work assumes that subject and socioculture are co-constitutive dimensions in continuous (re)configuration, permeated by ambivalence, resistance, and co-creation processes unfolding within the irreversibility of time. The research investigates how semiotic dynamics characterized by ambivalence and resistance operate in the (re)configuration of selfconceptions and in the formation of the body-self throughout the developmental trajectories of non-binary people. Following the Methodological Cycle, a qualitative idiographic approach was adopted, articulated through three interconnected phases: semi-structured individual interviews, go-along interviews, and a collective reflection group. Three adults, Chico, Cora, and Quíron (aged 26 to 29), participated in the study. All identified as nonbinary and were residing in Brasília, Brazil, at the time of the research. The presentation of results articulates two complementary dimensions: (a) the resonances among cases, guided by common schematic signs such as woman, bisexual, lesbian, and non-binary; and (b) the idiographic specificities of each trajectory, attentive to the singular affective–semiotic dynamics of meaning-making. The discussion unfolds through three interwoven analytical axes. Axis 1) “Dilemmatic processes and the production of self-permission” explores affective–semiotic tensions emerging within dilemmatic fields, where reflections on self-conception and the expression of the body-self mark movements of displacement beyond normativity. Within this field, the notion of dysphoria is displaced from an intrapsychic reading toward an intersubjective understanding linked to relational interpellations that constrain possibilities of self-permission. Axis 2) “The formation of the body-self and the persistence of vision” examines how the partial suspension of normative forces and of the Other’s interpellations engenders zones of affective–semiotic experimentation and (re)elaboration, where alternative ways of living, desiring, and recognizing oneself become imaginable. These dynamics manifested in situated experiences, within bedrooms, urban centers, and during the pandemic. Axis 3) “Non-binarity and human development: indeterminacy and the emergence of novelty” situates non-binarity as a transformational and self-regulatory operator within the psychological system, through acts of play, experimentation, and contestation in response to cisheteronormative interpellations. Affirming that questions are more generative than answers, this work conceives itself as a field of ambivalence and resistance, sustaining incompleteness and indeterminacy as ethical– political and epistemic principles of co-creation and of socioculturally implicated knowledge production.
Unidade Acadêmica: Instituto de Psicologia (IP)
Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento (IP PED)
Informações adicionais: Tese (doutorado) — Universidade de Brasília, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento, Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar, 2025.
Programa de pós-graduação: Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar
Licença: A concessão da licença deste item refere-se ao termo de autorização impresso assinado pelo autor com as seguintes condições: Na qualidade de titular dos direitos de autor da publicação, autorizo a Universidade de Brasília e o IBICT a disponibilizar por meio dos sites www.unb.br, www.ibict.br, www.ndltd.org sem ressarcimento dos direitos autorais, de acordo com a Lei nº 9610/98, o texto integral da obra supracitada, conforme permissões assinaladas, para fins de leitura, impressão e/ou download, a título de divulgação da produção científica brasileira, a partir desta data.
Agência financiadora: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Aparece nas coleções:Teses, dissertações e produtos pós-doutorado

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